Outro dia, li o seguinte trecho do "Pé na estrada":
"Chegou a hora de você conhecer o Rei Banana."
"...Você precisa escrever uma história sobre o Rei Banana", ele me aconselhou. "Não tente trapacear seu velho mestre escrevendo sobre outro assunto qualquer. o Rei Banana é o nosso prato. Lá está o Rei Banana." O Rei Banana era um velho que vendia bananas numa esquina. Eu estava completamente de saco cheio. Mas Remi ficava me dando socos nas costelas e até me puxando pelo colarinho. "Ao escrever sobre o Rei Banana, você está escrevendo sobre algo genuinamente humano." Eu lhe falei que estava cagando para o Rei Banana. "Enquanto você não estiver preparado para perceber a importância fundamental do Rei Banana, não saberá absolutamente nada sobre as coisas genuinamente humanas deste mundo", disse Remi enfaticamente.
Aí eu me pergunto: "O que seriam as coisas genuinamente humanas deste mundo?Será que elas existem mesmo? Se existem, como faço para encontrá-las ou senti-las?"
Está aí, mais um item na minha vida que vou começar a procurar. Além de estar em busca da garota quase ideal, das pessoas quase ideais, do lugar ideal, da melhor maneira de viver,da minha temporada das flores, vou tentar encontrar e identificar nas pessoas ou onde quer que seja, as coisas genuinamente humanas deste mundo, se é que elas existem de verdade.
Apesar de ser grandinho, achei interessante. Não sei se é porque ultimamente, tenho procurado alguma mudança para tornar a minha história diferente, tenho me ligado nessas coisas.
Para poder mudar, o que é melhor: procurar a origem dos problemas dentro ou fora de nós?
UM INDIVÍDUO, aflito por não encontrar ninguém com quem tocar a vida, consulta um psicoterapeuta. O que pode fazer o terapeuta? Nos anos 70, conheci um colega que abandonara sua prática para fundar uma agência matrimonial. Ele estava tão preocupado em curar as dores da solidão urbana que distribuía seus horários de maneira a produzir encontros "acidentais", em sua sala de espera, entre pacientes que lhe pareciam "compatíveis". No fim, ele decidiu que tinha mais vocação casamenteira que terapêutica. Provavelmente, meu colega se importava tanto com a felicidade amorosa dos outros porque, quando criança, ele não tinha sido razão suficiente para que seus pais continuassem se amando. Igual, o fato é que, mudando de profissão, ele conseguiu fazer algo interessante com seu sintoma -o que já é bom. Seja como for, quando comecei minha formação de terapeuta, ensinaram-me que, antes de mais nada, era preciso que os pacientes "subjectivassem" seu problema. Ou seja, dito em palavras menos bárbaras, para que o trabalho terapêutico fosse eficiente, a gente deveria primeiro fazer com que os pacientes se convencessem de que suas dificuldades eram, ao menos em parte, internas. Portanto, um paciente que se queixasse de não encontrar companhia deveria ser encorajado a "internalizar" seu problema, ou seja, a contar sua história questionando o que haveria de "errado" NELE (falta de disponibilidade, avareza ao se entregar, covardia do desejo etc.). Aí, poderíamos ajudá-lo a mudar. "Internalizar" (e não fundar uma agência matrimonial) era, em suma, a atitude certa. Outro exemplo, oposto. Um paciente consulta um terapeuta porque ele sofre de "depressão" ou de "déficit de atenção" -assim lhe foi dito pelo profissional que diagnosticou a doença e prescreveu a medicação. O dito paciente fala de "sua doença" como se ela fosse um atributo de seu ser, um traço defeituoso de sua identidade. Com isso, ele mal vai conseguir contar seus percalços: se o problema é tão intimamente ligado ao que ele é, que diferença sua história pode fazer? Dessa vez, a atitude certa não seria ajudá-lo a procurar as origens de "sua doença" FORA de sua identidade, ou seja, a "externalizar" sua doença? Nos anos 1990, li "Narrative Means to Therapeutic Ends" (meios narrativos para fins terapêuticos -ed. Norton), de David Epston e Michael White, terapeutas australianos. A obra me fez uma forte impressão, reavivada, nestes dias, pela notícia da morte de Michael White, aos 59 anos, e pela leitura do livro que ele publicou em 2007, "Maps of Narrative Practice" (mapas da prática narrativa - ed. Norton). Detalhe: há outro Michael White, escritor de romances e história da ciência - ele não morreu. Epston e White eram convencidos de que a possibilidade de mudar nossa vida depende de nossa maneira de contá-la. Também, eles eram leitores cuidadosos de Michel Foucault e pensavam que tudo o que contribui à criação de uma identidade fixa é opressivo e repressivo. Uma estratégia narrativa e terapêutica que eles propunham consistia em evitar que o paciente considerasse sua doença ou seu problema como parte de sua identidade. Eles preferiam sempre levar o paciente a "externalizar", ou seja, a narrar suas dificuldades como se fossem externas, percalços ou ataques vindos de fora. Aviso: antes de discordar deles, é bom ler os exemplos clínicos em que, em seu último livro, White leva uma criança (e os pais da mesma) a narrar sua batalha contra a Senhora Encopresia, que suja as cuecas e os lençóis, o Senhor Déficit, que impede de estudar, etc., como se fossem bruxas ou elfos do mal. Então: para mudar, é melhor "externalizar" nossos problemas, com o risco de descuidar das dinâmicas íntimas que nos governam, ou é melhor "internalizá-los", com o risco de hipertrofiar nossa identidade? Não sei, depende. Mas, sei que, por exemplo, nas eleições presidenciais nos EUA, muito além das questões que serão debatidas (a guerra, a economia, o sistema de saúde), a aposta é esta: será que os eleitores conseguirão pensar sua história (nacional e privada) como sugerem Epston e White? Será que saberão narrá-la como a história de uma comunidade de indivíduos, brancos, negros e latinos, que se chocaram e detestaram em mil ocasiões, mas não por isso concebem seu destino como conseqüência de identidades fixas e opostas?
"Portanto, neste exato minuto, devo me vestir, enfiar as calças e cair na vida, quer dizer, na vida do mundo exterior, pela ruas e o que mais acontecer."
"Em outras palavras, garota, o que estou dizendo é: temos mais é que entrar na dança rapidinho, do contrário, a gente fica aí numa flutuante, sem cair na real, e nossos planos jamais se cristalizarão."
Puxa, comecei a alguns dias a ler o livro "On the road" (Pé na estrada) de Kerouac e há trechos interessantes que vou colocá-los aqui. Na verdade, estou meio sem inspiração. Olha como são as coisas, semana passada a inspiração estava em alta, agora hoje, está em nível crítico.
"E foi exatamente assim que toda minha experiência na estrada de fato começou, e as coisas que estavam por vir são fantásticas demais para não serem contadas."